Um acidente recente levou o entregador Silvio Luiz Pinheiro a reconsiderar sua carreira nas entregas. Machucado e com dores, ele devolveu uma bicicleta alugada, refletindo sobre a falta de suporte e informação após o incidente.
A experiência de Silvio e a falta de apoio
Silvio estava na Avenida Sumaré, Zona Oeste de São Paulo, quando o freio de sua bicicleta elétrica falhou, resultando em uma queda. Para evitar ferimentos mais graves, ele tentou proteger o rosto com o braço, mas acabou lesionando a clavícula e o cotovelo. Ao retornar à central de locação, esperava alguma preocupação com sua condição, mas a resposta foi fria: o foco era apenas na devolução do equipamento. “Foi uma experiência desalentadora”, disse Silvio, que chegou a pensar em abandonar a profissão.
A transição e os riscos do trabalho
Após o acidente, Silvio optou por um emprego formal em um restaurante, motivado pela segurança que um convênio médico poderia proporcionar. No entanto, a paixão pelo ciclismo o trouxe de volta às entregas, especialmente ao perceber que pedalar ajudava a controlar sua saúde. Ele agora prefere trabalhar à noite, quando o trânsito é mais tranquilo e os riscos de acidentes diminuem.
Apesar de estar “99,9%” recuperado, Silvio ainda enfrenta os perigos diários das ruas. “Saio todo dia com a meta de faturar, mas a qualquer momento, um acidente pode acontecer”, alerta.
A realidade dos entregadores no Brasil
O cenário das entregas por aplicativos no Brasil é alarmante. Em 2024, cerca de 1,7 milhão de pessoas estavam envolvidas nesse setor, representando uma parcela significativa da força de trabalho. Entre eles, 29,3% são entregadores, totalizando aproximadamente 485 mil profissionais. Contudo, a falta de dados precisos sobre acidentes de trabalho é um grande desafio.
Desafios na coleta de dados
Os registros de acidentes são feitos por sistemas estaduais, mas não há informações que conectem os dados de acidentes de trânsito com a atividade laboral dos ciclistas. Em São Paulo, por exemplo, o número de acidentes fatais envolvendo ciclistas aumentou 27,8% nos últimos cinco anos. No entanto, esses números não discriminam se as vítimas eram entregadores em atividade no momento do acidente.
O procurador do trabalho Rodrigo Castilho aponta que essa falta de dados efetivos levou à criação de um projeto que visa melhorar a notificação de acidentes entre trabalhadores de plataformas. Recentemente, o Ministério da Saúde orientou a inclusão de informações sobre a atividade laboral dos acidentados nos registros, mas ainda não há dados consolidados que comprovem sua eficácia.
Opacidade das plataformas
Outro fator que complica a situação é a resistência das plataformas em fornecer dados sobre os entregadores. Castilho critica a falta de transparência e a justificativa das empresas sobre a proteção de informações sensíveis, o que impede um entendimento claro sobre a segurança dos trabalhadores. “Não temos dados sobre quantos estão efetivamente ativos ou quantos trabalham longas jornadas”, afirma.
A regulamentação para motoristas de aplicativo está em discussão, mas os entregadores ainda permanecem sem um amparo legal específico. Enquanto isso, Silvio e muitos outros continuam nas ruas, lutando por melhores condições e maior proteção.
Propostas para melhorar a situação
Silvio acredita que as plataformas poderiam oferecer mais suporte, como convênios médicos e melhores condições de trabalho. A falta de uma rede de proteção social a longo prazo é um dos principais problemas enfrentados por esses trabalhadores, que não têm acesso aos mesmos benefícios que um empregado formal.
As plataformas, por sua vez, afirmam priorizar a segurança, oferecendo seguros e orientações, mas a falta de comprovação torna difícil avaliar a eficácia dessas medidas.
Em suma, a situação dos entregadores de aplicativo no Brasil é um reflexo da necessidade urgente de regulamentação e melhores práticas que garantam a segurança e o bem-estar desses profissionais em um mercado em constante crescimento.







