A urna eletrônica, um marco na história das eleições brasileiras, surgiu em 1996, em meio a um cenário de fraudes eleitorais e a necessidade de modernização do processo. A primeira experiência ocorreu na cidade de Acaraú, Ceará, onde a população se preparava para utilizar o novo equipamento, uma inovação que prometia revolucionar a forma de votar no Brasil.
A gênese da urna eletrônica
A ideia de uma máquina para votação não era nova, constando no Código Eleitoral desde 1932, mas foi em 1996 que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu implementá-la. Naquele ano, apenas 32% do eleitorado utilizou a urna eletrônica, principalmente nas capitais e municípios grandes. Com o passar do tempo, essa porcentagem cresceu e, em 2000, a votação eletrônica alcançou a totalidade do eleitorado nacional.
Os ‘ninjas’ e a missão de inovar
Um grupo de cinco especialistas, carinhosamente apelidados de “ninjas” devido à sua habilidade e, em parte, à ascendência japonesa de três deles, foi fundamental na criação da urna. Mauro Hashioka, um dos engenheiros do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), fazia parte deste time que se dedicou a entender como a nova máquina seria recebida em comunidades com alto índice de analfabetismo, como Acaraú.
O matemático Giuseppe Janino, o “quinto ninja”, uniu-se ao grupo em um momento crítico, contribuindo com suas habilidades recém-adquiridas após ser aprovado em um concurso do TSE. Juntos, eles enfrentaram o desafio de projetar um equipamento que funcionasse sob diversas condições, sem depender de internet ou de energia elétrica, além de ser portátil e intuitivo.
Desenvolvimento técnico e inovações
Uma das principais inovações foi o design do teclado da urna, que seguiu o layout familiar dos telefones fixos da época, facilitando o uso para a população. A primeira versão da urna utilizava disquetes, que armazenavam dados de forma criptografada. Para aumentar a segurança, a equipe implementou um método de embaralhamento dos dados, que quase se tornou um pesadelo quando descobriram que não conseguiam desembaralhar esses arquivos antes da eleição.
Felizmente, com o trabalho árduo de um técnico isolado, o problema foi resolvido. Em 1998, os disquetes foram substituídos por cartões de memória flash, tornando o sistema mais eficiente e seguro.
Controle e produção
O hardware da urna eletrônica é fabricado por empresas selecionadas por meio de licitação, mas o TSE mantém um controle rigoroso sobre todo o processo. O edital de contratação é extenso e detalha quase 800 requisitos técnicos. A supervisão na fábrica garante que cada unidade siga as especificações requeridas, e a Justiça Eleitoral também desenvolve os softwares utilizados, mantendo o controle total sobre o código-fonte, que é auditado anualmente.
Testes de segurança e evolução
Em 2009, Janino propôs a realização de Testes Públicos de Segurança (TPS), permitindo que especialistas identificassem vulnerabilidades no sistema. Embora essa abordagem tenha encontrado resistência entre os antigos membros da equipe, Janino defendeu que identificar falhas antes das eleições era crucial para a credibilidade do processo. Desde a implementação da urna eletrônica, o TSE nunca registrou fraudes no sistema de votação, evidenciando a robustez e a eficiência da tecnologia desenvolvida.
A criação da urna eletrônica, marcada por desafios e inovações, representa um passo significativo na modernização das eleições no Brasil, refletindo o compromisso com a transparência e a segurança no processo eleitoral.







