A escalada no Everest representa um dos maiores desafios para o corpo humano, que enfrenta adversidades extremas em altitudes elevadas. Olívia Bonfim, primeira mulher sul-americana a conquistar a travessia Everest-Lhotse, compartilha sua experiência sobre como o organismo reage e se adapta nesse ambiente hostil.
O impacto devastador da altitude extrema
A partir de 8 mil metros, o corpo entra na chamada “zona da morte”, onde a adaptação se torna insustentável. Olívia Bonfim, aos 35 anos, completou a travessia Everest-Lhotse, atingindo 8.849 metros no Everest e 8.516 metros no Lhotse em menos de 24 horas. Essa façanha rendeu a ela e seu marido, Carlos Santalena, o título de primeiro casal a realizar essa conquista, conforme registrado no Guinness.
Os desafios da aclimatação
Com a redução da disponibilidade de oxigênio a altitudes elevadas, o corpo humano enfrenta sérias dificuldades. Segundo Marcos Bogado, cirurgião torácico e montanhista, a aclimatação é essencial, e não há atalho para esse processo. “A única forma de se aclimatar é subindo lentamente”, explica. Essa ascensão deve ser gradual, normalmente de 500 metros por dia, para que o organismo tenha tempo de se adaptar sem sofrer.
O efeito do oxigênio no corpo
A escassez de oxigênio causa o aumento da viscosidade do sangue, exigindo que os vasos sanguíneos se dilatem. Se a subida for muito rápida, pode resultar em condições perigosas como edema pulmonar e edema cerebral. “Manter-se bem hidratado e subir devagar é a chave para evitar complicações”, afirma Marcos.
O desgaste físico e mental durante a escalada
A falta de oxigênio provoca um aumento na frequência cardíaca, obrigando o coração a trabalhar mais para bombear sangue. Olívia sentiu os efeitos dessa pressão já no acampamento-base, onde até as tarefas mais simples se tornaram extenuantes. “Subir uma pequena elevação me deixava ofegante”, conta.
A ‘zona da morte’ e seus efeitos devastadores
A partir de 8 mil metros, o corpo começa a se degradar, e a permanência nessa altura deve ser breve. “Acima dessa altitude, o organismo não consegue mais se adaptar. Há uma janela de tempo limitada para atingir o cume e voltar”, alerta Marcos. Ele destaca que o raciocínio se torna mais lento, e o corpo prioriza funções essenciais, resultando em confusão mental e fadiga.
A luta contra os efeitos da altitude
A altitude não apenas afeta o corpo fisicamente, mas também o estado mental. Olívia experimentou episódios de confusão durante a ascensão, onde não conseguia reconhecer companheiros de expedição. “A comunicação se torna difícil com o oxigênio na máscara, e a percepção do ambiente se altera”, relata.
Os desafios do sono e da nutrição
O sono é escasso e repleto de dificuldades. É comum acordar com a sensação de sufocamento, já que o líquido se acumula nos pulmões ao deitar. Além disso, a falta de apetite e a sensação de enjoo tornam a alimentação um desafio crucial. “No ataque ao cume, a queima calórica é extrema, mas a ingesta de calorias é muito abaixo do necessário”, explica Marcos.
Os perigos do frio e da exposição solar
As temperaturas no Everest podem atingir extremos de 40 graus negativos, e o frio pode ser traiçoeiro. Olívia destaca que o congelamento não avisa, e a exposição à neve pode levar à cegueira temporária. “É um ambiente hostil que exige cuidados constantes”, alerta.
Desafios adicionais para mulheres montanhistas
As mulheres enfrentam desafios adicionais, incluindo a questão do ferro, que é crucial para a aclimatação. Olívia, que costuma ter níveis baixos de ferro, se preparou meses antes. Além disso, lidar com a menstruação durante a expedição apresenta suas próprias complexidades.
Enfrentando a morte e a fragilidade da vida
No Everest, a visualização de corpos de montanhistas falecidos é uma realidade. Contudo, o mais difícil é testemunhar a luta dos que ainda estão vivos e não podem ser salvos. Marcos recorda um resgate que realizou, onde um homem foi encontrado inconsciente, abandonado pela equipe. “Ajudamos a recuperar esse homem, mas o desespero de não conseguir salvar todos é constante”, reflete.
A recuperação e a adaptação pós-expedição
Após a descida, o corpo leva tempo para retornar ao seu estado normal. A adaptação se perde rapidamente, e o risco de complicações como trombose aumenta. A aclimatação é um processo que, segundo Marcos, é mais fácil para quem vive em altitudes elevadas, como os sherpas.
O que motiva a superação desses desafios?
A experiência no Everest mostra o que o corpo humano é capaz de suportar. Olívia reflete sobre suas experiências e a paixão que a impulsiona a enfrentar tais desafios. “É preciso amar esse ambiente, pois o desconforto e o risco são altos”, conclui a montanhista, ressaltando que a paixão é o que mantém os escaladores motivados a conquistar as alturas.







